2 de dezembro de 2005

É sempre a mesma coisa. O morto vira gênio, mito, master fodão xananan plus 2, enquanto o que vive, tendo que continuar tocando a vida, tem o desgaste de imagem que o morto não tem mais, e vira só mais um, uma sombra do que se foi. Papo de louco? Mais ou menos.

A BBC vai mostrar uma entrevista inédita com o John Lennon, feita antes do fim dos Beatles, falando que ele, além de George e Ringo, estava de saco cheio do Paul McCartney. Eu imagino o que o Paul sente quando ouve uma merda dessas. De um cara que, na minha opinião, ele mais ajudou do que foi ajudado. Não, não estou louco. Para mim, o verdadeiro líder, cabeça pensante dos Beatles, sempre foi o Paul. O George era o melhor músico, o Ringo era o engraçado, mas o compositor era o Paul, não tenho dúvidas. A grande maioria das músicas assinadas por Lennon/McCartney eram, na verdade, composta por apenas um deles, que colocava o outro como co-autor da música não me lembro bem porque o motivo. Só que, se você prestar atenção, cada um deles tem um estilo muito prórpio de compor. E se prestar um pouco mais de atenção, as que tem o estilo do Paul são bem mais numerosas do que as que tem o estilo do John.

Atenção: nada contra o Lennon, aliás, pelo contrário. Eu gosto de Beatles, e isso o inclui. Mas acho que as declarações do cara contra o Mc são meio que orgulho ferido, invejinha, mesmo. Só que ele morreu jovem, estigma dos gênios, dos mitos. Ficou com as glórias da juventude eterna, visto que não viveu para envelhecer. Paul, por outro lado, está aí, vivo, tocando, compondo até hoje. Envelheceu. Perdeu o punch da juventude, ficou viúvo, casou-se, virou sir... Perdeu aquela aura intocável de Beatle, que o outro mantém.

Reportagens, matérias, textos ou qualquer outra coisa como essa, endeusando o morto e se esquecendo do mérito do vivo me causam um sentimento muito forte de injustiça. Não questiono a genialidade de Lennon. Só que também não questiono a mesma, ou maior, genialidade de Paul. Às vezes esquecida, às vezes ofuscada, pela sombra de alguém que acho que ele nunca quis, e por razões óbvias não pode, competir.

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