11 de agosto de 2005

Tanta coisa que eu já quis ser na minha vida...

Quando eu era moleque queria ser atleta. E por que não? Eu era magrelo, cheio de energia, corria prá cacete e quando a gente fazia as olimpíadas da rua, eu era invariavelmente o campeão da prova da maratona (que era uma volta INTEIRA no quarteirão correndo e de salto em distância. Mas aí eu fui para a escolinha de futebol, e acabou o meu gosto por competir no esporte. Competidores profissionais, mesmo quando são amadores, são um pé no saco e deram à minha vontade o sentido inverso. Não queria mais competir. Queria colaborar.

Quando saí da escola, eu queria ser técnico em eletrônica. Que nem meu pai era. Passei no vestibulinho e fui para o curso técnico. Construir e consertar coisas que o homem normal não é capaz de entender, estar no ramo da tecnologia, ser praticamente um inventor. Mas aí eu comecei a aprender eletrônica. Professores ruins, colegas muito bons e profissionalismo e foco exigidos de uma criança de 14 anos. Pirei o cabeção. Virei bagunceiro. Repeti de ano duas vezes, fui expulso do colégio. Fui estudar administração, porque não queria mais saber de eletrônica.

Queria, aí, ser cineasta! Fazer filmes que mexeriam com a emoção das pessoas. Queria ajudar as pessoas a passarem algumas horas em lugares maravilhosos, entretidos com personagens extraordinários, esquecendo os problemas e as mesmices do dia a dia... Mas aí, me vi brasileiro, pobre, sem chances, sem oportunidades...

Aí eu quis ser músico. Fui aprender a tocar violão, depois baixo, depois guitarra. Tinha medo porque eu não tinha me dado muito bem com minhas aulas de piano na infância... Até que eu acho que levo jeito para a música. Tive minhas bandinhas, meus momentos de estrelinha, meus momentos de rocker, mesmo. Porres homéricos, tocar para 2000 pessoas... Mas aí, vi que não era a vida que eu poderia ter. Não era um talento que sobresaísse para viver disso e que, por mais que eu gostasse, música seria sempre um hobby que amo, não mais que isso.

A vida meio que me transformou num executivo. E eu gostei! Comecei a ter viagens de negócio, ser procurado por head hunters, negociar acordos entre empresas, ter responsabilidades que eu só achava possíveis para pessoas com muito mais idade, conhecimento e experiência do que eu. E eu passei a querer ser um grande executivo, desses que aparece na capa da Veja, da IstoÉ Dinheiro... Mas aí, a gente descobre que a vida não é bem assim. Que executivo que é executivo mesmo não tem 5, 6 anos de carreira. Tem 15, 20, 25, até poder encher a boca prá falar que é executivo. E eu percebi que ainda tenho muito prá fazer antes de ser um.

E um dia eu descobri o que gosto de fazer! Escrever. Quis ser escritor. E não é que eu comecei a escrever meu livro? Eu tinha tudo pronto. Um mundo pronto na cabeça. Uma coisa que eu não sei explicar, mas que acontece comigo: eu tenho um rascunho na cabeça, mas quando começo a escrever, parece que tá pronto. A história ganha vida, vai acontecendo na minha frente até eu chegar num ponto de parar, ler e ajustar para ficar como eu sabia que era, mesmo antes de começar a fazer... Mas aí, meu computador deu pau, sumiu o arquivo do meu livro. Será que era um sinal? Será que era prá eu parar, para não ter a desilusão de que eu também não conseguiria fazer isso? Enfim, mais uma coisa que foi para a geladeira.

Agora eu não quero ser atleta, nem técnico, nem cineasta, nem músico, nem executivo, nem escritor, nem piloto de avião, nem astronauta, nem piloto de fórmula 1, nem nada... Não quero absolutamente nada! Não quero. Me recuso a querer. Como criança frustrada, que não quer agora sou eu!

Quem sabe, nesse ponto, o "mas aí..." joga a meu favor!

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